Com aproximadamente 40 anos de trabalho na área de psicologia, auxiliando pais, professores, casais e famílias, decidi criar este espaço como forma de contribuição com orientações nesta área.
domingo, 10 de novembro de 2013
Ruptura dos Laços Afetivos e o Trabalho com Famílias
O livro do I Shing data do ano 249 aC. e surgiu na China antiga.
Nesta época assim ele dizia com relação à ordem que deveria existir na família:
“ Na família uma firme autoridade é necessária; isto é representado pelos pais. Quando o pai é realmente um pai e o filho um filho, quando o irmão mais velho, preenche sua função como irmão mais velho, e o mais moço a que lhe é própria, quando o esposo é realmente esposo e a esposa uma esposa, então a família está em ordem. Quando a família está em ordem, todos os relacionamentos sociais da humanidade também estão em ordem”.( Livro I Shing , pag.123).
Nestes 6 meses de trabalho, temos observado os seguintes fatores que levam a criança ou adolescente ao acolhimento, e como consequência uma dificuldade de retorno ao lar, ou mesmo nos casos mais graves e quanto maior o tempo de acolhimento pode levar a uma ruptura de vínculos com a família de origem.
Estes são alguns fatores que levam a criança ou adolescente ao serviço de acolhimento:
a- Viuvez da mãe ou do pai com filhos pequenos não tendo como trabalhar para sustenta-los
b- Drogadição dos pais
c- Abandono por problemas psiquiátricos dos pais
d- Separação e novas uniões – quando o padrasto ou madrasta não aceita filhos do primeiro casamento -
e- Violência e abuso sexual impetrada a criança ou adolescente
Fatores que dificultam a volta da criança ou adolescente para casa:
Muitas vezes as mães ou pais separados ou viúvos, acabam formando novos casais tendo outros filhos desta segunda união; e estes novos pares não aceitam as crianças ou adolescentes do primeiro casamento.
Aí iniciam - se os conflitos entre madrastas, padrastos, vodrastos , vodrastas e as vezes a própria mãe ou pai que não quer mais o filho dentro de casa para evitar conflitos com o companheiro (a) .
Percebemos que a mãe às vezes está impossibilitada por questões financeiras, por ter outros filhos pequenos do segundo casamento, e não poder sair para trabalhar e resolver sua vida sem este companheiro que impede que o assistido volte para casa.
O bem estar e até um certo conformismo que acontece quando algumas mães percebem que seus filhos estão sendo cuidados dentro do abrigo, cuidados estes que elas não tinham como ofertar a seus filhos.
“Com o afastamento do filho, as desavenças entre o companheiro (a) cessam e uma falsa ideia de paz passa a reinar dentro do lar(?)”. Digo falsa, porque na maior parte das vezes ele ( assistido) é o elemento que se rebela, contra as injustiças que percebe.
O comodismo da mãe, em relação ao filho abrigado, de não fazer nenhum movimento para retira -lo do abrigo ,faz com que o filho sinta uma falta de consideração e de amor por parte da mãe em detrimento à escolha que fez pelo padrasto ou madrasta.
Num primeiro momento, embora expliquemos quando o assistido chega no abrigo, que este acolhimento é por uma medida de segurança, ele acaba sempre pensando que fez algo de errado por isso têm que ficar separado da família; inconscientemente acha que deve pagar culpas por “coisas erradas” que fez.
À medida que o tempo passa, as crianças e os adolescentes percebem que dentro do abrigo estão sendo cuidados, tratados com dignidade, respeito. São estimulados a estudar, praticar esportes, ter cultura, lazer e estão livres dos desentendimentos dentro do lar, são fatores que pesam para que ele deixe o abrigo e volte para casa.
Com a saída da criança ou adolescente do lar, a dinâmica da família muda, pois vai havendo entre os outros irmãos uma nova formatação. Então, quando ele retorna nas visitas, percebe que seu lugar foi ocupado por outro irmão, e que não tem mais o lugar que ocupava na dinâmica familiar, gerando um sentimento de rejeição, raiva e tristeza; concluindo, eles acabam perdendo a referencia familiar.
Por mais que o abrigo possa fazer pela criança ou adolescente, em termos de cuidados gerais de saúde física e mental, de oferta de conhecimento, valores humanos, um acolhimento é sempre um fato traumático na vida deles.
Cai por terra o sentimento de pertencimento e acolhida tão necessários às relações familiares, passando a vigorar o sentimento de exclusão.
O sistema de comunicação entre os membros da família de origem, ficam prejudicados quanto maior o tempo de acolhimento.
Já não podem estar junto, com pais e irmãos e saber como é o enfrentamento da família nas situações do cotidiano.
Lembrando que a auto- imagem é construída através de recordações no ambiente familiar, “ nas coisas” que faziam juntos ( pais e irmãos), brincadeiras, acontecimentos, etc. Se houveram momentos ruins, possivelmente houveram também boas recordações da família que ficou estagnada depois do acolhimento.
Pensamos na verdade, que o trabalho de Rede ( CREAS Conselho Tutelar) com famílias deva ser realizado e intensificado antes do acolhimento, afim de que os vínculos não se rompam . O acolhimento deve ocorrer em último caso.
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