sábado, 23 de novembro de 2013

NOSSO COTIDIANO

“À medida que a família foi evoluindo até os tempos atuais, ocorreram modificações no relacionamento com os filhos. Por exemplo: antes, os motivos da consulta psiquiátrica decorriam do fato de que os filhos não obedeciam, eram rebeldes. Atualmente, observa-se que a procura é pelo fato de que os filhos estão desorientados e com dificuldade de se inserirem no mundo. ( Família pós Moderna Gildo Katz e Gley P. Costa)
 Hoje as mães não podem mais ficar em casa com seus filhos, porque elas também precisam trabalhar para contribuir em parte com o orçamento doméstico e em parte por elas mesmas como forma de sentir-se útil, importante, porque o serviço doméstico hoje, parece desvalorizado.
Com a saída da mãe, as crianças ficaram sem um referencial para seguir,  quando não estão sobrecarregadas com tarefas escolares e cursos extracurriculares, têm como companhia a empregada doméstica, a  televisão ou a Internet .
À procura de trabalho, as famílias migraram para os grandes centros. E nestes o contato com a violência, com o medo e com a insegurança.
Em vista disto, e com toda razão, os pais passaram a proteger excessivamente os filhos.
As próprias famílias estão também encapsuladas em seus lares em  apartamentos ou condomínios fechados.
O excesso de proteção os deixou mais solitários e os privou de experimentar, de correr riscos , elas não podem mais brincar nas ruas, trocar experiências com outras crianças, como se fazia antigamente.
As famílias, igualmente solitárias, muitas vezes não conhecem seus vizinhos, passando anos sem saber quem mora ao lado. Cada família fechada em seu próprio mundo sem poder aprender  com outras famílias ou com os mais velhos. A família sem um referencial de outras famílias fecha-se em seu  sistema particular e único, advindo daí uma insegurança em criar filhos.
Para sobreviver nos grandes centros, as famílias precisaram criar um sistema artificial e hoje passam a juntar-se a  grupos de amigos igualmente  solitários, tentando se ajudar, por exemplo, uns levam os filhos dos outros para a escola e os outros trazem, etc...
As crianças hoje só andam de automóvel,  recebem tudo pronto desde o que comer até as escolhas das roupas que irão vestir. O excesso de proteção deixa as pessoas inseguras, impede o livre caminhar, torna-as indefesas e com dificuldades de experimentar situações novas ou tomar decisões.
Desta forma, as crianças não podem mais brincar nas ruas e desfrutar de todo o aprendizado que a natureza e as brincadeiras infantis ofereciam, não têm parentes por perto, a quem possam seguir como modelo, ou alguém que os aconselhe ou lhes ofereçam segurança quando os pais não estão em casa.         
Todos nós sabemos da qualidade dos programas de t.v., o que as crianças assistem hoje é um apelo à violência, um incentivo à sexualidade e ao consumismo.A televisão é formadora de opinião, ela traz tudo pronto sem dar oportunidade do jovem pensar, falar, argumentar.
Outro fator preocupante além da televisão é a Internet, se bem que quando  usada adequadamente pode  contribuir de forma significativa para desenvolver o conhecimento geral.  A Internet  já faz parte integrante de nossa vida, ela nos mantém em contato  com o mundo e isto é maravilhoso.
Contudo, os filhos sozinhos em casa ficam nas salas de bate papo e os pais não sabendo quem é o desconhecido com quem elas estão conversando e que tipo de assunto estão abordando e qual a quantidade de horas estão dispensando a estas atividades.
 Contudo, há crianças e jovens que permanecem a noite toda na Internet e no dia seguinte, dormem na sala de aula e já podemos sentir os efeitos disso ao  atender crianças e adolescentes com sérios problemas comportamentais, e péssimo rendimento escolar .
Os pais como  orientadores, educadores devem estar presentes, quando os filhos estão na Internet, observando quais sites estão acessando, e limitar o tempo de utilização da Internet .
Às vezes as pessoas nos perguntam: porque o nível de violência tem aumentado tanto?
Percebemos que as crianças não estão sendo respeitadas como crianças, elas estão dia a dia tornando-se um adulto em miniatura.
Não existe moda para crianças, roupa de criança é igual a dos adultos. Nas vitrines não se encontram mais calçados infantis, sapatos para as meninas, apenas com saltos altos iguais aos da mamãe.
O que ocorre é que estamos queimando etapas do seu desenvolvimento social, afetivo emocional. Os meios de  comunicação acabam por exacerbar a sensualidade precoce.
As crianças não tem mais contato com a natureza, nem tampouco constroem seus brinquedos. Os pais ganham dinheiro e os compram prontos.
A culpa que sentem em deixá-los para poder trabalhar o dia todo,  faz com que acabem comprando além do necessário, e as crianças acabam não se apegando ou dando pouco valor afetivo a ele. O brinquedo quebra, mas não faz mal, a mamãe compra outro rapidinho.
As pessoas se alimentam no transito, comendo um hambúrguer e tomando uma coca- cola, que além de prejudicar a saúde provocando a obesidade, aborta a oportunidade do convívio social familiar.
É difícil, hoje em dia, uma família sentar-se à mesa reunida para um almoço e conversar, saber como foi o dia de cada um.
Outro fato importante que observamos é que existe pressa em tudo, está todo mundo muito atarefado, sem tempo para conversar, desenvolver a religiosidade,  ensinar as coisas da vida para as crianças, transmitir a história da família, transmitir valores humanos e culturais, etc.
Percebemos que muitos  jovens estão na verdade tendo uma lacuna em termos de seu desenvolvimento físico, afetivo emocional e social, traduzido pelo prejuízo que se expressa quando os recebemos em nossa clínica com os seguintes sintomas: sentimento de solidão, depressão, anorexia – bulimia, agressividade elevada, passividade elevada, tentativa de suicídio, gravidez precoce, drogadição, dificuldades de aprendizagem, dificuldades de atenção e concentração, dificuldade de socialização, dificuldade de comunicação e expressão, a linguagem está cada dia mais precária, e a dificuldade para escrever, maior ainda.
No livro  Bordeline , chamou-me a atenção a referencia do autor falando a respeito do suicídio. Ele relata que o fato da pessoa desejar o suicídio ou o alto índice de suicídio deva-se ao fato da pessoa sentir um vazio muito grande, promovido pela perda do referencial familiar, e também pela falta de religiosidade.
“E meu único talento de pedagogo é talvez ter conservado uma impressão tão total da juventude, que sinto e compreendo, como criança que educo. Os problemas que estas colocam e que são enigma tão grave para os adultos, coloco-os ainda a mim mesmo com as nítidas recordações dos meus oito anos, e é como adulto - criança que descubro, através dos sistemas e métodos que sempre me fizeram sofrer, os erros de uma ciência que esqueceu e desconhece as suas origens.

Porque os verdadeiros problemas da infância são e permanecem os mesmos: o capim que se agita, o inseto que zumbe, a cobra cujo silvo gela o sangue, o trovão assustador, a sineta que toca as horas mortas da escola, os mapas mudos e os quadros fantásticos. E é a vida, através das exigências do meio, que se agita sempre, intrépida e inextinguível, essa vida que basta encontrar e ajudar para que desabroche, apesar dos nossos destinos acorrentados, a comovedora  história da infância audaz.” (CÉLESTIN FREINET)

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