“À medida que a família foi evoluindo
até os tempos atuais, ocorreram modificações no relacionamento com os filhos.
Por exemplo: antes, os motivos da consulta psiquiátrica decorriam do fato de
que os filhos não obedeciam, eram rebeldes. Atualmente, observa-se que a
procura é pelo fato de que os filhos estão desorientados e com dificuldade de
se inserirem no mundo. ( Família pós Moderna Gildo Katz e
Gley P. Costa)
Hoje as mães não podem mais ficar em
casa com seus filhos, porque elas também precisam trabalhar para contribuir em
parte com o orçamento doméstico e em parte por elas mesmas como forma de
sentir-se útil, importante, porque o serviço doméstico hoje, parece
desvalorizado.
Com a saída da mãe, as crianças ficaram
sem um referencial para seguir, quando
não estão sobrecarregadas com tarefas escolares e cursos extracurriculares, têm
como companhia a empregada doméstica, a
televisão ou a Internet .
À procura de trabalho, as famílias
migraram para os grandes centros. E nestes o contato com a violência, com o
medo e com a insegurança.
Em vista disto, e com toda razão, os
pais passaram a proteger excessivamente os filhos.
As próprias famílias estão também
encapsuladas em seus lares em apartamentos
ou condomínios fechados.
O excesso de proteção os deixou mais
solitários e os privou de experimentar, de correr riscos , elas não podem mais
brincar nas ruas, trocar experiências com outras crianças, como se fazia
antigamente.
As famílias, igualmente solitárias,
muitas vezes não conhecem seus vizinhos, passando anos sem saber quem mora ao
lado. Cada família fechada em seu próprio mundo sem poder aprender com outras famílias ou com os mais velhos. A
família sem um referencial de outras famílias fecha-se em seu sistema particular e único, advindo daí uma
insegurança em criar filhos.
Para sobreviver nos grandes centros, as
famílias precisaram criar um sistema artificial e hoje passam a juntar-se a grupos de amigos igualmente solitários, tentando se ajudar, por exemplo,
uns levam os filhos dos outros para a escola e os outros trazem, etc...
As crianças hoje só andam de automóvel,
recebem tudo pronto desde o que comer
até as escolhas das roupas que irão vestir. O excesso de proteção deixa as
pessoas inseguras, impede o livre caminhar, torna-as indefesas e com
dificuldades de experimentar situações novas ou tomar decisões.
Desta forma, as crianças não podem mais
brincar nas ruas e desfrutar de todo o aprendizado que a natureza e as
brincadeiras infantis ofereciam, não têm parentes por perto, a quem possam
seguir como modelo, ou alguém que os aconselhe ou lhes ofereçam segurança
quando os pais não estão em casa.
Todos nós sabemos da qualidade dos
programas de t.v., o que as crianças assistem hoje é um apelo à violência, um
incentivo à sexualidade e ao consumismo.A televisão é formadora de opinião, ela
traz tudo pronto sem dar oportunidade do jovem pensar, falar, argumentar.
Outro fator preocupante além da
televisão é a Internet, se bem que quando
usada adequadamente pode contribuir de forma significativa para desenvolver
o conhecimento geral. A Internet já faz parte integrante de nossa vida, ela
nos mantém em contato com o mundo e isto
é maravilhoso.
Contudo, os filhos sozinhos em casa
ficam nas salas de bate papo e os pais não sabendo quem é o desconhecido com
quem elas estão conversando e que tipo de assunto estão abordando e qual a
quantidade de horas estão dispensando a estas atividades.
Contudo,
há crianças e jovens que permanecem a noite toda na Internet e no dia seguinte,
dormem na sala de aula e já podemos sentir os efeitos disso ao atender crianças e adolescentes com sérios
problemas comportamentais, e péssimo rendimento escolar .
Os pais como orientadores, educadores devem estar
presentes, quando os filhos estão na Internet, observando quais sites estão
acessando, e limitar o tempo de utilização da Internet .
Às vezes as pessoas nos perguntam:
porque o nível de violência tem aumentado tanto?
Percebemos que as crianças não estão
sendo respeitadas como crianças, elas estão dia a dia tornando-se um adulto em
miniatura.
Não existe moda para crianças, roupa de
criança é igual a dos adultos. Nas vitrines não se encontram mais calçados
infantis, sapatos para as meninas, apenas com saltos altos iguais aos da mamãe.
O que ocorre é que estamos queimando
etapas do seu desenvolvimento social, afetivo emocional. Os meios de comunicação acabam por exacerbar a sensualidade
precoce.
As crianças não tem mais contato com a
natureza, nem tampouco constroem seus brinquedos. Os pais ganham dinheiro e os compram
prontos.
A culpa que sentem em deixá-los para
poder trabalhar o dia todo, faz com que
acabem comprando além do necessário, e as crianças acabam não se apegando ou
dando pouco valor afetivo a ele. O brinquedo quebra, mas não faz mal, a mamãe
compra outro rapidinho.
As pessoas se alimentam no transito,
comendo um hambúrguer e tomando uma coca- cola, que além de prejudicar a saúde
provocando a obesidade, aborta a oportunidade do convívio social familiar.
É difícil, hoje em dia, uma família
sentar-se à mesa reunida para um almoço e conversar, saber como foi o dia de
cada um.
Outro fato importante que observamos é
que existe pressa em tudo, está todo mundo muito atarefado, sem tempo para
conversar, desenvolver a religiosidade, ensinar
as coisas da vida para as crianças, transmitir a história da família, transmitir
valores humanos e culturais, etc.
Percebemos que muitos jovens estão na verdade tendo uma lacuna em
termos de seu desenvolvimento físico, afetivo emocional e social, traduzido
pelo prejuízo que se expressa quando os recebemos em nossa clínica com os
seguintes sintomas: sentimento de solidão, depressão, anorexia – bulimia, agressividade
elevada, passividade elevada, tentativa de suicídio, gravidez precoce, drogadição,
dificuldades de aprendizagem, dificuldades de atenção e concentração, dificuldade
de socialização, dificuldade de comunicação e expressão, a linguagem está cada
dia mais precária, e a dificuldade para escrever, maior ainda.
No livro Bordeline , chamou-me a atenção a referencia
do autor falando a respeito do suicídio. Ele relata que o fato da pessoa
desejar o suicídio ou o alto índice de suicídio deva-se ao fato da pessoa
sentir um vazio muito grande, promovido pela perda do referencial familiar, e também
pela falta de religiosidade.
“E meu único talento de pedagogo é
talvez ter conservado uma impressão tão total da juventude, que sinto e
compreendo, como criança que educo. Os problemas que estas colocam e que são
enigma tão grave para os adultos, coloco-os ainda a mim mesmo com as nítidas
recordações dos meus oito anos, e é como adulto - criança que descubro, através
dos sistemas e métodos que sempre me fizeram sofrer, os erros de uma ciência
que esqueceu e desconhece as suas origens.
Porque os verdadeiros problemas da
infância são e permanecem os mesmos: o capim que se agita, o inseto que zumbe,
a cobra cujo silvo gela o sangue, o trovão assustador, a sineta que toca as
horas mortas da escola, os mapas mudos e os quadros fantásticos. E é a vida, através
das exigências do meio, que se agita sempre, intrépida e inextinguível, essa
vida que basta encontrar e ajudar para que desabroche, apesar dos nossos
destinos acorrentados, a comovedora
história da infância audaz.” (CÉLESTIN FREINET)
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