quarta-feira, 20 de novembro de 2013

PERDAS E GANHOS NOS ÚLTIMOS 60 ANOS

PERDAS E GANHOS  NOS ÚLTIMOS 60 ANOS


CASIMIRO DE ABREU
                                                                         Lisboa- 1857
Oh!Que saudades que eu tenho
Da aurora da minha vida
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras,
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais...

Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberto o peito,
Pés descalços braços nus
Correndo pelas campinas
À roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis !
Ao ler a poesia de Casimiro, os mais velhos, se reportam à sua infância...
Eles se lembram que quando  crianças brincavam alegremente nas ruas, sem medo, não havia violência . Lembram-se também que as casas dos vizinhos, amigos e parentes estavam sempre abertas e quase não havia muros que as separava. Os vizinhos também ajudavam a cuidar das crianças!
Os meios de transporte e de comunicação eram precários; neste tempo ainda não havia televisão.
Casas abertas, sem muros, sem televisão, era um convite para um cafezinho e um bom papo entre os adultos. Parecia não haver pressa entre as pessoas.
As famílias moravam muito próximo uma das outras e as crianças tinham um convívio permanente com seus avós, tios e primos, favorecendo sobremaneira os contatos sociais e afetivos.
No dia a dia, enquanto os pais trabalhavam, as mães ficavam em casa cuidando e orientando os filhos.
As crianças tinham como responsabilidade: ajudar a cuidar dos irmãos mais novos, arrumar a casa, ajudar a mamãe a preparar a alimentação da família, ir à escola e depois do dever cumprido, eram autorizadas a brincar.
Quase não havia brinquedos prontos, e elas construíam seus  próprios  brinquedos. As meninas brincavam de cantigas de roda, pular corda, passar anel, amarelinha, de casinha. Faziam petecas de palha de milho e penas de aves, enquanto que os meninos construíam seus balões, seus carrinhos com carretéis de linha e suas pipas usando bambu .
...”Adivinhações populares faziam parte da infância ( do tipo o que é , o que é que cai de pé e corre deitado) e outras. Ter que pensar , raciocinar rápido, Uma brincadeira de rua. Reunia-se a turma na calçada,  alguém ( era sempre uma mulher ) se levantava e fazia a pergunta. Quem adivinhasse fazia a próxima e assim por diante . Ganhava quem ia mais para o centro da roda fazer perguntas. Ganhava o quê? Um prêmio? Não , ganhava nada a não ser a honraria. O prazer. Tinha gente que era rei ou rainha- das adivinhações-, assim como tinha gente que era o melhor para atravessar a rua em um pé só, sabia se esconder sem nunca ter achado, criava as melhores pipas ( chamadas também de papagaio), vencia as corridas com arco de ferro , ( um círculo de ferro encontrado em lugares mais impossíveis, tocado com um bastão de madeira ou uma vareta de arame grosso, derrotava a todos com o carrinho de rolimã ou mesmo nos de rodas de madeira, vencia sempre nos jogos de tampinha ou bolinha de gude.
A rua era nosso território. Havia ruas onde nunca passavam carros. O caminhão de lenha vinha um vez por semana, descarregava a madeira na calçada. Os filhos ( nós ) eram obrigados a levar a lenha , cheia de farpas pontiagudas, para o quintal, para os pais picarem uma vez por dia...
...Brinquedo de loja somente duas vezes por ano, no aniversário ou no Natal. Era cuidar- porque tinha quem roubava - e tratar de inventar mil e umas com aquele caminhãozinho de madeira ( não existia plástico)Com uma lata em cima virava ônibus. Com outra, redonda, de óleo de cozinha, se fazia um caminhão de gasolina. Com duas tabuinhas pregadas nas laterais, se tornava um avião. Um só brinquedo se tornava 200, bastava ter imaginação e fantasia. Sabíamos sonhar. Era a magia. Bonecas nasciam de trapos conseguidos nas costureiras, ou de sabugos de milho. Brincava –se de fazer comida em latas de massa de tomate. Batons eram subtraídos das mães e tias para embelezar .Na minha rua sempre se fazia um teatrinho mambembe em cima de algum quarador de roupa . Quando o pai não podia comprar brinquedo, o jeito era freqüentar a marcenaria do Negrini e catar sobras de tábuas e, com arames e pregos enferrujados encontrados pela rua, criar máquinas alucinantes..”
( Ignácio de Loyola Brandão-25 de fevereiro de 2005 –Jornal _O  Estado de São Paulo)
Construir os próprios brinquedos, dava  às crianças uma satisfação ímpar, e dentre estes brinquedos , apareciam os jogos sazonais,  jogos que apareciam como o próprio nome diz segundo as estações do ano  . Em agosto apareciam as pipas, por causa dos ventos mais fortes, em junho os balões, nas festas juninas,  colheita do milho , as petecas e bonequinhas feitas de palha e sabugo de milho, barquinhos de papel para colocar na enxurrada na época das chuvas etc.
O contato com a natureza era freqüente, e os sentidos estavam todos sempre aguçados ao andar descalço em contato com a terra, ao observar o tamanho e a forma dos animais como cavalo, cães, gatos, pássaros, borboletas, ao admirar as cores das flores, ao sentir o cheiro da terra seca ou molhada, ao tomar banho de cachoeira, ao brincar das águas limpas e geladas dos rios, ao empinar pipa, ao sentir a velocidade do vento que batia  no rosto, ao brincar na chuva sentindo a força da água da enxurrada.
 Vez ou outra aparecia um circo na cidade e a criançada ficava deslumbrada com os espetáculos. Palhaços e malabaristas, não proporcionavam apenas alegria , era mais que isso; era um verdadeiro encantamento , era um sonho mágico.
O respeito aos mais velhos era a norma familiar.
As crianças, não podiam participar de diversos assuntos dos adultos.
Às vezes, as crianças chegavam a pensar que eles estavam errados, mas hoje nos perguntamos: não seria uma forma de respeito e proteção às crianças? Não seria um jeito de dizer que tudo tem sua hora, que cada coisa tem seu tempo certo para acontecer?
Nesta época, as frutas não eram apanhadas verdes, sabia-se quando elas estavam no ponto certo de serem saboreadas, porque percebia -se sua coloração, a proximidade das abelhas querendo sorver o mel, e os pássaros bicando as mais doces!
 As pessoas tinham tempo para observar a natureza!
As reuniões familiares originavam um sentimento de proteção e alegria às crianças.
Os almoços de domingo, as conversas perto do fogão à lenha ou  ao redor da mesa, plena de pratos saborosos preparados pela vovó, era um momento sempre esperado.
As receitas culinárias eram passadas das mães para as filhas, e estas receitas eram compiladas em cadernos elaborados com muito esmero,  cada qual com o nome de quem as forneceu.
 Sempre que uma moça ia se casar, levava em seu enxoval o caderninho com receitas ensinadas por sua bisavó, sua avó e  sua mãe.  O caderno de receitas, era a obra de arte das donas de casa, era a forma de intercambiar intergeracionalmente experiências, era semelhante a álbum de fotografia da família, era parte da história das pessoas que não deveriam se perder no tempo.
 A culinária passada de geração a geração tinha a ver com as raízes, com a  origem, com a nossa história de cada família.
Cada prato daquele caderno de receitas saboreado hoje, trás à  lembrança,  os odores , os sabores , a alegria, e a saudade da infância.
Durante a semana, à noite, enquanto as crianças brincavam na rua, em frente as casas, as famílias reuniam-se na casa de um ou de outro  para  jogar buraco ou bingo e isto acontecia à luz de velas.  O tempo demorava muito a passar.
Nesta época, o sentimento de solidariedade, o amor e respeito ao próximo, eram colocados antes de tudo. Quando um familiar ou um amigo tinha algum problema financeiro ou de saúde, estava a família unida para tentar auxiliar no que pudesse. Os  bebês nasciam em casa, a parteira era amiga, psicóloga , médica, pessoa que dava apoio naquele momento , era autoridade respeitada e querida por todos.     

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