PERDAS E GANHOS NOS ÚLTIMOS 60 ANOS
CASIMIRO DE ABREU
Lisboa-
1857
Oh!Que saudades que eu tenho
Da aurora da minha vida
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras,
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais...
Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberto o peito,
Pés descalços braços nus
Correndo pelas campinas
À roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis !
Ao ler a poesia de Casimiro, os mais
velhos, se reportam à sua infância...
Eles se lembram que quando crianças brincavam alegremente nas ruas, sem
medo, não havia violência . Lembram-se também que as casas dos vizinhos, amigos
e parentes estavam sempre abertas e quase não havia muros que as separava. Os
vizinhos também ajudavam a cuidar das crianças!
Os meios de transporte e de comunicação
eram precários; neste tempo ainda não havia televisão.
Casas abertas, sem muros, sem
televisão, era um convite para um cafezinho e um bom papo entre os adultos.
Parecia não haver pressa entre as pessoas.
As famílias moravam muito próximo uma
das outras e as crianças tinham um convívio permanente com seus avós, tios e
primos, favorecendo sobremaneira os contatos sociais e afetivos.
No dia a dia, enquanto os pais
trabalhavam, as mães ficavam em casa cuidando e orientando os filhos.
As crianças tinham como
responsabilidade: ajudar a cuidar dos irmãos mais novos, arrumar a casa, ajudar
a mamãe a preparar a alimentação da família, ir à escola e depois do dever
cumprido, eram autorizadas a brincar.
Quase não havia brinquedos prontos, e elas
construíam seus próprios brinquedos. As meninas brincavam de cantigas
de roda, pular corda, passar anel, amarelinha, de casinha. Faziam petecas de
palha de milho e penas de aves, enquanto que os meninos construíam seus balões,
seus carrinhos com carretéis de linha e suas pipas usando bambu .
...”Adivinhações populares faziam parte
da infância ( do tipo o que é , o que é que cai de pé e corre deitado) e
outras. Ter que pensar , raciocinar rápido, Uma brincadeira de rua. Reunia-se a
turma na calçada, alguém ( era sempre
uma mulher ) se levantava e fazia a pergunta. Quem adivinhasse fazia a próxima
e assim por diante . Ganhava quem ia mais para o centro da roda fazer
perguntas. Ganhava o quê? Um prêmio? Não , ganhava nada a não ser a honraria. O
prazer. Tinha gente que era rei ou rainha- das adivinhações-, assim como tinha
gente que era o melhor para atravessar a rua em um pé só, sabia se esconder sem
nunca ter achado, criava as melhores pipas ( chamadas também de papagaio),
vencia as corridas com arco de ferro , ( um círculo de ferro encontrado em
lugares mais impossíveis, tocado com um bastão de madeira ou uma vareta de
arame grosso, derrotava a todos com o carrinho de rolimã ou mesmo nos de rodas
de madeira, vencia sempre nos jogos de tampinha ou bolinha de gude.
A rua era nosso território. Havia ruas
onde nunca passavam carros. O caminhão de lenha vinha um vez por semana,
descarregava a madeira na calçada. Os filhos ( nós ) eram obrigados a levar a
lenha , cheia de farpas pontiagudas, para o quintal, para os pais picarem uma
vez por dia...
...Brinquedo de loja somente duas vezes
por ano, no aniversário ou no Natal. Era cuidar- porque tinha quem roubava - e
tratar de inventar mil e umas com aquele caminhãozinho de madeira ( não existia
plástico)Com uma lata em cima virava ônibus. Com outra, redonda, de óleo de
cozinha, se fazia um caminhão de gasolina. Com duas tabuinhas pregadas nas laterais,
se tornava um avião. Um só brinquedo se tornava 200, bastava ter imaginação e
fantasia. Sabíamos sonhar. Era a magia. Bonecas nasciam de trapos conseguidos
nas costureiras, ou de sabugos de milho. Brincava –se de fazer comida em latas
de massa de tomate. Batons eram subtraídos das mães e tias para embelezar .Na
minha rua sempre se fazia um teatrinho mambembe em cima de algum quarador de
roupa . Quando o pai não podia comprar brinquedo, o jeito era freqüentar a
marcenaria do Negrini e catar sobras de tábuas e, com arames e pregos
enferrujados encontrados pela rua, criar máquinas alucinantes..”
( Ignácio de Loyola Brandão-25 de
fevereiro de 2005 –Jornal _O Estado de
São Paulo)
Construir os próprios brinquedos, dava às crianças uma satisfação ímpar, e dentre
estes brinquedos , apareciam os jogos sazonais, jogos que apareciam como o próprio nome diz
segundo as estações do ano . Em agosto
apareciam as pipas, por causa dos ventos mais fortes, em junho os balões, nas
festas juninas, colheita do milho , as
petecas e bonequinhas feitas de palha e sabugo de milho, barquinhos de papel para
colocar na enxurrada na época das chuvas etc.
O contato com a natureza era freqüente,
e os sentidos estavam todos sempre aguçados ao andar descalço em contato com a
terra, ao observar o tamanho e a forma dos animais como cavalo, cães, gatos,
pássaros, borboletas, ao admirar as cores das flores, ao sentir o cheiro da
terra seca ou molhada, ao tomar banho de cachoeira, ao brincar das águas limpas
e geladas dos rios, ao empinar pipa, ao sentir a velocidade do vento que
batia no rosto, ao brincar na chuva
sentindo a força da água da enxurrada.
Vez ou outra aparecia um circo na
cidade e a criançada ficava deslumbrada com os espetáculos. Palhaços e
malabaristas, não proporcionavam apenas alegria , era mais que isso; era um
verdadeiro encantamento , era um sonho mágico.
O respeito aos mais velhos era a norma
familiar.
As crianças, não podiam participar de
diversos assuntos dos adultos.
Às vezes, as crianças chegavam a pensar
que eles estavam errados, mas hoje nos perguntamos: não seria uma forma de
respeito e proteção às crianças? Não seria um jeito de dizer que tudo tem sua
hora, que cada coisa tem seu tempo certo para acontecer?
Nesta época, as frutas não eram
apanhadas verdes, sabia-se quando elas estavam no ponto certo de serem
saboreadas, porque percebia -se sua coloração, a proximidade das abelhas
querendo sorver o mel, e os pássaros bicando as mais doces!
As pessoas tinham tempo para observar a
natureza!
As reuniões familiares originavam um
sentimento de proteção e alegria às crianças.
Os almoços de domingo, as conversas
perto do fogão à lenha ou ao redor da
mesa, plena de pratos saborosos preparados pela vovó, era um momento
sempre esperado.
As receitas culinárias eram passadas
das mães para as filhas, e estas receitas eram compiladas em cadernos
elaborados com muito esmero, cada qual
com o nome de quem as forneceu.
Sempre
que uma moça ia se casar, levava em seu enxoval o caderninho com receitas
ensinadas por sua bisavó, sua avó e sua
mãe. O caderno de receitas, era a obra
de arte das donas de casa, era a forma de intercambiar intergeracionalmente
experiências, era semelhante a álbum de fotografia da família, era parte da
história das pessoas que não deveriam se perder no tempo.
A culinária passada de geração a geração tinha
a ver com as raízes, com a origem, com a
nossa história de cada família.
Cada prato daquele caderno de receitas
saboreado hoje, trás à lembrança, os odores , os sabores , a alegria, e a saudade
da infância.
Durante a semana, à noite, enquanto as
crianças brincavam na rua, em frente as casas, as famílias reuniam-se na casa
de um ou de outro para jogar buraco ou bingo e isto acontecia à luz
de velas. O tempo demorava muito a
passar.
Nesta época, o sentimento de
solidariedade, o amor e respeito ao próximo, eram colocados antes de tudo.
Quando um familiar ou um amigo tinha algum problema financeiro ou de saúde,
estava a família unida para tentar auxiliar no que pudesse. Os bebês nasciam em casa, a parteira era amiga,
psicóloga , médica, pessoa que dava apoio naquele momento , era autoridade respeitada
e querida por todos.
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