quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Antes que eles cresçam

   Affonso Romano Sant’Anna
Há um período em que os pais  vão ficando órfãos dos seus próprios filhos.
As crianças crescem independentes de nós, como árvores tagarelas e pássaros estabanados.
Crescem sem pedir licença à vida.
Mas não crescem todos os dias de igual maneira
Crescem  de repente
Um dia, sentam-se perto de você e dizem uma frase com tal maturidade que você sente  que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura.
Onde é que andou crescendo aquele danadinho que  você não percebeu?
A criança está crescendo num ritual de obediência orgânica e  desobediência civil. E você está agora ali,  na porta da discoteca, esperando que ela não apenas  cresça mas apareça!
Ali estão muitos pais ao volante, esperando que eles saiam esfuziante sobre patins e cabelos longos, soltos.
 Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão nossos filhos com o uniforme de sua geração: mochilas nos ombros...
Esses são os filhos que conseguimos gerar e amar.
E eles crescem meio amestrados, observando e aprendendo com nossos acertos e erros.
Principalmente com os erros que esperamos que não repitam...
Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos. Não mais os pegaremos nas portas das discotecas e das festas.
Passou o tempo do balé, do inglês, da natação e do judô
Saíram do banco de trás  e passaram para o volante de suas próprias vidas.
Deveríamos ter ido mais à cama deles ao anoitecer  para ouvir sua alma respirando conversas e confidencias  entre os lençóis da infância, e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio  adesivos , pôsteres, agendas coloridas e discos ensurdecedores.
Eles cresceram sem que esgotássemos neles todo o nosso afeto.
No princípio, subiam a serra ou iam à casa da praia entre embrulhos, bolachas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscina e amiguinhos.
Sim, havia brigas dentro do carro, a disputa pela janela...
Depois chegou o tempo em que viajar com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar a turma e os primeiros namorados.
Os pais, ficaram exilados dos filhos. Tinham a solidão que sempre desejaram, mas, de repente, morriam de saudades daqueles  “pestes”.
O jeito é esperar : qualquer hora podem nos dar netos. O neto é a hora do carinho ocioso, e estocado não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer conosco. Por isso os avós são tão desmesurados e distribuem  tão incontrolável carinho. Os netos são a última oportunidade de reeditar nosso afeto.

 Por isso, é preciso fazer alguma coisa a mais, antes que eles cresçam.  

Um comentário:

  1. sim! vivo as duas situações hoje, os filhos que já cresceram e outros pequenos...vou viver mais essa infancia .Obrigada.

    ResponderExcluir