Fatores que implicam na formação de vínculos afetivos.
Jadete
Calisto
“O fracasso do desenvolvimento da
personalidade nas crianças que sofrem privação é, talvez, mais bem compreendido
quando se considera que é a mãe que, nos primeiros anos de vida da criança,
funciona como sua personalidade e consciência. A criança em instituição, nunca
teve esta experiência e, desta forma, não pode nunca completar a primeira fase
do desenvolvimento- estabelecer uma relação com uma figura materna claramente
definida”. John
Bowlby
Um dos graves problemas que encontramos
em crianças e adolescentes acolhidos, é
a questão do estabelecimento de vínculos afetivos.
O que se percebe é a grande desconfiança
dos mesmos nas relações afetivas, pelo medo do abandono.
Na verdade, em matéria de abandono eles
são conhecedores, o fato de estarem acolhidos já concretiza o abandono.
Os vínculos afetivos são formados no
início da vida e a mãe biológica ou a substituta, são figuras de referencia na formação dos mesmos.
Quando as figuras parentais, não foram capazes de estabelecer
vínculos de afeto com o bebê, este sentirá futuramente muitas dificuldades de entendimento
da vida, e para relacionar-se com outras pessoas.
O afeto é o elemento essencial na
formação dos vínculos.
Metaforicamente, podemos pensar numa semente
que não pode germinar sem o solo apropriado. O mesmo podemos pensar no ser
humano, o bebê espera pelo afeto e não
encontra; o vínculo não se estabelece, o bebê se perde se desorganiza e muitas vezes adoece.
Outras vezes existe o “solo”, contudo
este não possui os nutrientes
necessários para que a semente se desenvolva. A planta então mingua...
Quando o bebe não encontra o afeto que
necessita, ele se perde, como aquela planta que mingua, quando não encontra um
solo fértil.
“ Da mesma forma, a mãe, por sua simples
presença e ternura , pode agir como “ organizador” da mente de uma criança,
ainda nos estágios muito pouco desenvolvidos de crescimentos inicial”. John Bowlby
Afeto implica em proteção, a criança que
não foi protegida, amada, seja pela mãe biológica, ou por outras figuras, acaba
criando uma hiper defesa, então, não sente medo, não respeita limites ou normas
sociais, reage de forma agressiva aos contatos sociais.
Ela aprendeu a defender-se sozinha, não
tem ninguém por ela, apresenta frieza de
sentimentos; este é o primeiro passo para o desenvolvimento das sociopatias.
A grande dificuldade de se trabalhar em
abrigos é saber como lidar com crianças
e adolescentes que tem tanta desconfiança nas relações afetivas .
Para quem pretende trabalhar em abrigos,
ou para quem pretende adotar uma criança, deve-se perguntar se entende da arte de fazer conquistas
ou se tem facilidade em construir vínculos afetivos.
O grande desafio para quem trabalha em
abrigo é saber como se aproximar e conquistar estes seres já tão machucados emocionalmente.
Geralmente tiveram formas de
relacionamento agressivas, passando a relacionar-se desta mesma forma com
funcionários, com outros acolhidos ou na escola que frequentam.
O grande problema para quem trabalha com
estas crianças, é saber como conquista´- las, como formar um vínculo com elas, uma vez que
quem já foi muito ferido, também fere e faz o possível para proteger – se
de outras exclusões.
O contato interpessoal é superficial,
evitando vincular-se efetivamente, para não sofrer novos abandonos.
Estas crianças têm um desejo muito
grande de serem amadas verdadeiramente, mas sentem muito medo de amar e de
serem rejeitadas.
O que temos percebido é que eles testam
o afeto o tempo todo, ao relaciona-se com o outro; a parte mais difícil de
entender é isso.
Inconscientemente testam para saber se serão
aceitas inteiramente com sua parte boa e com sua parte ruim.
No
abrigo, elas acabam quebrando regras, para certificar - se de que as pessoas
que trabalham com elas , as ama de verdade, inteiramente, incondicionalmente.
´E preciso que as pessoas que trabalham
nesta área se perguntem se estão dispostas a enfrentar este desafio .
“Como amar um ser que está a todo
instante testando limites?”
Estas crianças reproduzem no ambiente as
vivencias traumáticas que tiveram fora do ambiente institucional.
Elas buscam estabilidade do ambiente e
uma atitude firme e confiável das pessoas que cuidam dela.
O comportamento agressivo que muitas
vezes manifestam, não pode ter como resposta, mais agressividade de quem cuida delas, isso só agravará o
quadro que apresentam e irá repetir o trauma já sentido .
Para se trabalhar com estas crianças,
precisamos de olhares mais compreensivos, mais complacentes e mais humanizados,
sem isso, torna-se muito difícil o desenvolvimento do trabalho.
O
mesmo ocorre com as famílias pretendentes a adoção, que deverão estar muito bem
preparadas para enfrentar este desafio.
Por este motivo, as adoções
não poderão ocorrer de forma precipitada, elas devem percorrer um longo
caminho, e se fazer por etapas e com muita orientação por parte da equipe
técnica do abrigo.
Para quem pretende adotar, é preciso
pensar que este processo é semelhante ao “namoro”.
Quando
do primeiro encontro com a criança que pretende adotar, perceber, se ao olhar,
sente empatia e não pena, se aceita o outro da forma como é, por inteiro, com
suas virtudes e defeitos, se sente prazer em estar perto, se está preparado
para tolerar muitas vezes a indiferença e se é capaz de estabelecer limites.