quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Fatores que implicam  na formação de vínculos afetivos.
                                         Jadete Calisto
“O fracasso do desenvolvimento da personalidade nas crianças que sofrem privação é, talvez, mais bem compreendido quando se considera que é a mãe que, nos primeiros anos de vida da criança, funciona como sua personalidade e consciência. A criança em instituição, nunca teve esta experiência e, desta forma, não pode nunca completar a primeira fase do desenvolvimento- estabelecer uma relação com uma figura materna claramente definida”. John Bowlby
 Um dos graves problemas que encontramos em  crianças e adolescentes acolhidos, é a questão do estabelecimento de vínculos afetivos.
O que se percebe é a grande desconfiança dos mesmos nas relações afetivas, pelo medo do abandono.
Na verdade, em matéria de abandono eles são conhecedores, o fato de estarem acolhidos já concretiza o abandono.
Os vínculos afetivos são formados no início da vida e a mãe biológica ou a substituta, são  figuras de referencia na formação dos mesmos.
Quando as  figuras parentais, não foram capazes de estabelecer vínculos de afeto com o bebê, este sentirá futuramente muitas dificuldades de entendimento da vida, e para relacionar-se com outras pessoas.
O afeto é o elemento essencial na formação dos vínculos.
 Metaforicamente, podemos pensar numa semente que não pode germinar sem o solo apropriado. O mesmo podemos pensar no ser humano, o bebê  espera pelo afeto e não encontra; o vínculo não se estabelece, o bebê se perde se desorganiza e  muitas vezes adoece.
Outras vezes existe o “solo”, contudo este não possui os nutrientes  necessários para que a semente se desenvolva. A planta então mingua...
Quando o bebe não encontra o afeto que necessita, ele se perde, como aquela planta que mingua, quando não encontra um solo fértil.
“ Da mesma forma, a mãe, por sua simples presença e ternura , pode agir como “ organizador” da mente de uma criança, ainda nos estágios muito pouco desenvolvidos de crescimentos inicial”. John Bowlby
Afeto implica em proteção, a criança que não foi protegida, amada, seja pela mãe biológica, ou por outras figuras, acaba criando uma hiper defesa, então, não sente medo, não respeita limites ou normas sociais, reage de forma agressiva aos contatos sociais.
Ela aprendeu a defender-se sozinha, não tem ninguém por ela, apresenta  frieza de sentimentos; este é o primeiro passo para o desenvolvimento das sociopatias.
A grande dificuldade de se trabalhar em abrigos é saber  como lidar com crianças e adolescentes que tem tanta desconfiança nas relações afetivas .
Para quem pretende trabalhar em abrigos, ou para quem pretende adotar uma criança, deve-se perguntar se entende da arte de fazer conquistas ou se  tem facilidade em construir  vínculos afetivos.
O grande desafio para quem trabalha em abrigo é saber como se aproximar e conquistar estes seres já tão machucados emocionalmente.
Geralmente tiveram formas de relacionamento agressivas, passando a relacionar-se desta mesma forma com funcionários, com outros acolhidos ou na escola que frequentam.   
O grande problema para quem trabalha com estas crianças, é saber como conquista´- las, como formar um vínculo com elas,  uma vez que  quem já foi muito ferido, também fere e faz o possível para proteger – se de outras exclusões.
O contato interpessoal é superficial, evitando vincular-se efetivamente, para não sofrer novos abandonos.
Estas crianças têm um desejo muito grande de serem amadas verdadeiramente, mas sentem muito medo de amar e de serem rejeitadas.
O que temos percebido é que eles testam o afeto o tempo todo, ao relaciona-se com o outro; a parte mais difícil de entender é isso.
 Inconscientemente testam para saber se serão aceitas inteiramente com sua parte boa e com sua parte ruim.
 No abrigo, elas acabam quebrando regras, para certificar - se de que as pessoas que trabalham com elas , as ama de verdade, inteiramente, incondicionalmente.
´E preciso que as pessoas que trabalham nesta área se perguntem se estão dispostas a enfrentar este desafio .
“Como amar um ser que está a todo instante testando limites?”  
Estas crianças reproduzem no ambiente as vivencias traumáticas que tiveram fora do ambiente institucional.
Elas buscam estabilidade do ambiente e uma atitude firme e confiável das pessoas que cuidam dela.
O comportamento agressivo que muitas vezes manifestam, não pode ter como resposta, mais agressividade  de quem cuida delas, isso só agravará o quadro que apresentam e irá repetir o trauma já sentido .
Para se trabalhar com estas crianças, precisamos de olhares mais compreensivos, mais complacentes e mais humanizados, sem isso, torna-se muito difícil o desenvolvimento do trabalho.
  O mesmo ocorre com as famílias pretendentes a adoção, que deverão estar muito bem preparadas para enfrentar este desafio.
  Por este motivo, as adoções não poderão ocorrer de forma precipitada, elas devem percorrer um longo caminho, e se fazer por etapas e com muita orientação por parte da equipe técnica do abrigo.
Para quem pretende adotar, é preciso pensar que este processo é semelhante ao “namoro”.

 Quando do primeiro encontro com a criança que pretende adotar, perceber, se ao olhar, sente empatia e não pena, se aceita o outro da forma como é, por inteiro, com suas virtudes e defeitos, se sente prazer em estar perto, se está preparado para tolerar muitas vezes a indiferença e se é capaz de estabelecer  limites.